Estudo mostra que é possível interceptar tipo de câncer de sangue antes do seu aparecimento

Dados de congresso internacional confirmam potencial de tratamentos inovadores para oferecer mais tempo e qualidade de vida aos pacientes

Interceptar o câncer antes do seu aparecimento, aumentar o tempo livre de progressão da doença e proporcionar tratamentos mais cômodos aos pacientes. Estes foram alguns benefícios demonstrados pelas novas terapias contra o câncer de sangue, apresentadas nesta semana durante a 59ª edição do encontro científico da Sociedade Americana de Hematologia, em Atlanta.

“O tratamento do paciente com câncer hematológico é extremamente desafiador, mas novos avanços na medicina têm transformado o modo como essas doenças, que ainda não têm cura, são abordadas. Recentes inovações têm estabelecido um novo paradigma no tratamento de doenças como mieloma múltiplo, leucemia linfocítica crônica e linfomas, como o de células do manto”, afirma Telma Santos, Diretora Médica da Janssen Brasil.

Cinco apresentações orais realizadas no encontro trouxeram novos dados para dois medicamentos: daratumumabe, primeiro imuno-oncológico aprovado para mieloma múltiplo, e ibrutinibe, terapia-alvo que ataca apenas as células doentes de alguns cânceres hematológicos.

Dados do estudo CENTAURUS mostraram potencial uso de daratumumabe em um estágio inicial e assintomático do mieloma múltiplo[1] – atualmente, o medicamento é indicado para pacientes que não responderam a uma ou mais terapias anteriores[2]. “Tratar pacientes em um estágio anterior ao aparecimento do câncer indica que há caminhos para interceptar a doença antes de sua progressão e do aparecimento de sintomas, como fraturas ósseas, anemia ou insuficiência renal”, afirma Craig C. Hofmeister, MD, professor em Hematologia na Ohio State University, nos Estados Unidos.

Outros ensaios clínicos com daratumumabe (PAVO) comprovaram segurança e menor risco de reações na apresentação subcutânea[3] (injeção) do medicamento na comparação com a infusão pela veia (administração atualmente aprovada²), o que pode beneficiar pacientes, médicos e sistemas de saúde.

Um terceiro trabalho apresentado (AlCYONE) concluiu que, em um esquema de combinação com outros três medicamentos (bortezomibe, melphalan e prednisona), daratumumabe reduz em 50% o risco de progressão da doença ou de morte de pacientes recém-diagnosticados com mieloma múltiplo que não podem realizar o transplante de células-tronco autólogas (quando o doador é o próprio paciente)[4].

Já o tratamento contra outro câncer de sangue – o linfoma de células do manto – obteve resultados positivos com ibrutinibe a partir de uma análise de três estudos clínicos. “Os achados deste grande conjunto de dados embasam o uso precoce de ibrutinibe para a doença recidivante ou refratária, com base na durabilidade das respostas observadas nesses pacientes”, diz Simon Rule, MD, Professor em Hematologia na Plymouth University Medical School, Reino Unido. O estudo mostrou que a mediana de tempo de sobrevida livre de progressão de doença foi de 33 meses. O acompanhamento de três anos e meio constatou ainda que eventos adversos ocorridos no início do tratamento tendem a diminuir com o tempo e, geralmente, são menos comuns quando os pacientes são tratados precocemente com a medicação[5].

Um outro dado apresentado no congresso em formato de pôster foi o acompanhamento de três anos de pacientes do estudo RESONATE-2, que comparou o tratamento de pacientes de leucemia linfocítica crônica em primeira linha com ibrutinibe versus clorambucil. O trabalho mostrou uma taxa inédita de controle da doença nesse período, com uma sobrevida livre de doença de 85% com ibrutinibe (versus 28% com clorambucil)[6].

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[1] Hofmeister C et al. Daratumumab monotherapy for patients with intermediate or high-risk smoldering multiple myeloma (SMM): CENTAURUS, a randomized, open-label, multicenter phase 2 study. 2017 American Society of Hematology Annual Meeting. December 2017.
2 Bula DALINVI, Novembro de 2017.
3 Chari A et al. Subcutaneous Delivery of Daratumumab in Patients (pts) with Relapsed or Refractory Multiple Myeloma
(RRMM): PAVO, an Open-label, Multicenter, Dose Escalation Phase 1b Study. 2017 American Society of Hematology Annual Meeting. December 2017.
4 Mateos M., et all. Phase 3 Randomized Study of Daratumumab Plus Bortezomib, Melphalan, and Prednisone (De-VMP) Versus Bortezomib, Melphalan, and Prednisone (VMP) in Newly Diagnosed Multiple Myeloma (NDMM) Patients Illegible for Transplant (ALCYONE). ASH 2017. Abstract #LBA-4.
5 Rule, S et al. Median 3.5-year Follow-Up of Ibrutinib Treatment in Patients with Relapsed/Refractory Mantle Cell Lymphoma: A Pooled Analysis. ASH 2017 Abstract #151
6 N Engl J Med. 2015 Dec 17;373(25):2425-37. doi: 10.1056/NEJMoa1509388. Epub 2015 Dec 6.

Sobre o mieloma múltiplo
O mieloma múltiplo é um câncer de sangue incurável que ocorre quando os plasmócitos (células específicas do sangue) crescem incontrolavelmente na medula óssea, sendo mais frequente a partir dos 60 anos de idade. O câncer refratário ocorre quando a doença de um paciente é resistente ao tratamento ou, no caso de mieloma múltiplo, quando progride precocemente depois da última terapia. A recaída ou recidiva significa que a doença retornou após um período de remissão (desaparecimento das células malignas da medula óssea). Embora alguns pacientes com mieloma múltiplo não tenham sintomas, a maioria é diagnosticada após manifestar fratura ou dor nos ossos, baixa contagem de glóbulos vermelhos, fadiga, elevação de cálcio, problemas renais ou infecções.

Sobre o linfoma de células do manto (LCM)
O linfoma de células do manto é considerado uma doença rara dos linfócitos (tipo de células do sangue). Inicialmente, afeta os gânglios linfáticos, mas pode facilmente se espalhar para outros tecidos, como a medula óssea, o fígado e o trato gastrointestinal. A doença acomete tanto homens quanto mulheres, no entanto é mais comum em homens. A média de idade no momento do diagnóstico é de cerca de 65 anos

Sobre daratumumabe
O medicamento foi avaliado em regime de priorização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que antecipou em um ano e meio a chegada da terapia no Brasil – praticamente ao mesmo tempo em que os principais países do mundo. O Brasil foi o segundo a ter o medicamento aprovado para o tratamento combinado do mieloma múltiplo em pacientes adultos nas seguintes indicações:

• Em combinação com bortezomibe e dexametasona, para o tratamento de pacientes que receberam pelo menos um tratamento anterior para mieloma múltiplo.
• Como tratamento em monoterapia, em pacientes que receberam anteriormente pelo menos três medicamentos para tratar o mieloma múltiplo, incluindo um inibidor de proteassoma (IP) e um agente imunomodulador, ou que não responderam ao tratamento com um inibidor de proteassoma ou um agente imunomodulador.

Daratumumabe pertence a uma nova classe terapêutica chamada anticorpos monoclonais e é o único aprovado para o tratamento de mieloma múltiplo. Uma das maneiras pela qual os anticorpos monoclonais agem é por meio da ligação a células cancerosas específicas no organismo, para que elas possam ser destruídas pelo próprio sistema de defesa do corpo (novo conceito de imuno-oncologia).

Antes do lançamento do daratumumabe no Brasil, o tratamento do mieloma múltiplo era feito com quimioterapia, drogas antineoplásicas, administração de corticoides ou transplante de medula óssea e afetava células doentes e sadias do organismo do paciente. Por ser uma terapia-alvo, que age especificamente nas células tumorais, daratumumabe oferece maior precisão ao tratamento, menos efeitos colaterais e, consequentemente, melhora na qualidade de vida do paciente.

Sobre ibrutinibe
Ibrutinibe foi aprovado pela Anvisa em regime de priorização em maio de 2015 para o tratamento da leucemia linfocítica crônica (LLC), incluindo o linfoma linfocítico de pequenas células (LLPC). Em julho de 2016, também passou a ser indicado para linfoma de células do manto (LCM). Em setembro do mesmo ano, pacientes com macroglobulinemia de Waldenström (MW) começaram a ser beneficiados pela terapia. E, mais recentemente, no início de dezembro, recebeu aval positivo para linfoma de zona marginal.

É indicado para tratar adultos com:
• Leucemia linfocítica crônica (LLC), incluindo o Linfoma Linfocítico de Pequenas Células (LLPC).
• Linfoma de célula do manto (LCM) em pacientes que receberam no mínimo um tratamento anterior contendo rituximabe.
• Macroglobulinemia de Waldenström em pacientes que receberam no mínimo um tratamento para esta doença.
• Linfoma de zona marginal, recidivado ou refratário, que receberam no mínimo um tratamento anterior contendo rituximabe e que requerem terapia sistêmica.

Ibrutinibe funciona bloqueando uma proteína no corpo (tirosina-quinase de Bruton – BTK) que ajuda na sobrevivência da célula maligna. Por meio do bloqueio dessa proteína, o medicamento ajuda a matar e a reduzir o número de células cancerosas e pode ainda retardar a disseminação do câncer. O medicamento é um antineoplásico oral e pode ser administrado em casa pelo próprio paciente, sem necessidade de internação.

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